Mostra reúne pinturas em vidro, instalações e performance para investigar ancestralidade indígena e refletir sobre memória, apagamento histórico e herança no Brasil

Com curadoria de Leonardo Alves, o projeto é realizado por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte (0134/2024), com apoio de Cerlev – Inovação em Fermentação Ltda, Catuçaí do Nandão e PNAC/LTDA. A produção é do Grupo Dolores e Ateliê Ciana. A entrada é gratuita.
Iniciada em 2021, a pesquisa parte de uma investigação sobre a ancestralidade materna da artista, marcada pela figura de Maria Rita, mulher guarani sequestrada ainda criança na Serra da Mantiqueira. Ao revisitar fotografias familiares, documentos de cartório e relatos orais, Ciana constrói uma narrativa que articula memória pessoal e história coletiva.
O título da exposição nasce dessa percepção: a história de uma família não é isolada, mas atravessada por processos sociais maiores. A micro-história revela a macro-história.
A escolha do vidro como suporte central da pintura é também conceitual. Transparência, suspensão e deslocamento atravessam a trajetória da artista, que transita entre artes visuais e cênicas. Ao pintar com tinta gráfica e óleo sobre vidro, a imagem se torna instável. O solvente turva, dilata e cria camadas. De longe, vê-se o retrato; de perto, emergem micro-narrativas abstratas. A matéria ecoa a própria ideia de memória.



Entre os trabalhos apresentados, destaca-se a instalação Ara pyau, termo em guarani que significa tempo novo. A obra reúne sete gerações em torno de uma fogueira, gesto que será retomado na performance de abertura, marcada para às 20h do dia 17 de março, com interpretação em LIBRAS. A data coincide com os 90 anos do encantamento de Maria Rita, falecida em 17 de março de 1936.
Outra instalação convida o público a preencher fichas de nascimento e óbito em uma máquina de escrever, tensionando o documento como registro oficial da memória. No ateliê montado dentro da Funarte, estarão expostos desenhos preparatórios, anotações e o texto integral do Diretório dos Índios, documento de 1757 que institucionalizou políticas de assimilação forçada de povos originários.
“A exposição é uma materialização da pesquisa. Organizar um pensamento para oferecer ao público uma reflexão: o que a história individual de uma família pode dizer sobre a história coletiva do Brasil?”, afirma a artista.
A programação inclui roda de conversa no dia 21 de março, às 19h, com o curador Leonardo Alves e artistas convidados, com interpretação em LIBRAS. No dia 27, às 19h30, a professora Giulia Giovani, da Escola de Belas Artes da UFMG, participa de conversa sobre conservação e mídias não convencionais na arte contemporânea.
Após a temporada na Funarte, o projeto terá versões itinerantes no segundo semestre e lançamento de catálogo virtual.
Serviço
O que? A gente é muita gente – 1ª exposição individual de Ciana Brandão
Onde? Funarte – Rua Januária, 68 – Centro – Belo Horizonte
Quando? 17 a 28 de março de 2026
Visitação: 18 a 28/03, das 11h às 21h
Entrada gratuita
Abertura: 17/03, a partir das 19h
Performance: 20h (com LIBRAS)
Encerramento: 21h30
21/03 – 19h
Roda de conversa com Leonardo Alves e artistas convidados (com LIBRAS)
27/03 – 19h30
Roda de conversa com Giulia Giovani
Tema: Restauração e arte contemporânea
Projeto 0134/2024 – Lei Municipal de Incentivo à Cultura
Apoio: Cerlev – Inovação em Fermentação Ltda, Catuçaí do Nandão, PNAC/LTDA
Produção: Grupo Dolores e Ateliê Ciana
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