Especialista explica por que formação técnica nem sempre basta para sustentar uma carreira e quais habilidades ajudam a precificar, gerir e crescer
Muitos profissionais criativos passam anos se formando, acumulam repertório técnico e chegam ao mercado com domínio do que fazem. Só depois descobrem que saber tocar, ensinar, criar ou executar bem não garante, sozinho, uma carreira financeiramente sustentável.
Na música, essa lacuna aparece com frequência. Conservatórios e universidades formam instrumentistas, regentes, compositores e professores preparados para entregar qualidade artística e pedagógica. Mas gestão, precificação, posicionamento e planejamento financeiro nem sempre entram com a mesma força na formação.

Para Cintya Soares, musicista, fonoaudióloga e mentora de professores e donos de escolas de música, o problema começa quando o profissional criativo não reconhece a própria atividade como um negócio.
“O músico aprende que é artista. Aprende que é professor. Mas nem sempre aprende que a escola, a agenda de aulas ou o estúdio também são negócios e precisam ser tratados com método para que seja uma empresa rentável”, afirma.
A conta que não fecha
O reflexo dessa lacuna costuma aparecer cedo. Professores com formação sólida e anos de experiência muitas vezes cobram valores abaixo do necessário porque nunca calcularam custos, tempo de trabalho, impostos, reposição de agenda, férias e margem de crescimento.
Quando a renda não acompanha o esforço, a saída mais comum é aumentar o número de alunos. O problema é que mais aulas nem sempre significam mais sustentabilidade. Em muitos casos, o resultado é uma rotina mais cansativa, com pouco tempo para planejamento, estudo, descanso e expansão do negócio.
“O professor cansa. Ele tem 40, 50 alunos, dá aula de manhã à noite, não tem tempo para nada e, no fim do mês, ainda não sobra o que deveria. Não é preguiça, não é falta de talento. É falta de gestão. É não saber precificar, não saber montar o negócio de uma forma que faça sentido financeiramente”, diz Cintya.
O que a faculdade nem sempre ensina
Segundo a especialista, muitos professores de música aprendem a gerir a carreira por tentativa e erro. A dificuldade não está na qualidade do trabalho, mas na falta de repertório sobre temas como preço, posicionamento, captação de alunos, retenção, organização de agenda e modelo de negócio.
“Quando falo em empreendedorismo para músicos, não estou falando em transformar o professor em vendedor. Estou falando em dar a ele ferramentas para que o trabalho que ele já faz com excelência seja reconhecido e remunerado de forma justa. Isso passa por gestão. Não tem outro caminho”, avalia.
Precificar não é apenas cobrar mais
Para Cintya, um dos erros mais comuns é tratar preço como uma decisão emocional. Muitos profissionais cobram com base no medo de perder alunos, na comparação com colegas ou na ideia de que arte e ensino não deveriam ser pensados como negócio.
A precificação, no entanto, precisa considerar custos, tempo de preparação, experiência, deslocamento, estrutura, impostos, cancelamentos, reposição de aulas e metas de renda. Sem essa conta, o profissional pode trabalhar muito e ainda assim não construir estabilidade.
Ela viveu parte desse processo antes de reorganizar a própria carreira. À frente de uma escola de música, no interior de São Paulo, percebeu que volume de alunos e rentabilidade não são a mesma coisa. Um modelo com menos alunos e ticket mais alto, segundo ela, pode ser mais sustentável do que uma agenda cheia com valores baixos.
Gestão também protege o trabalho criativo
A ideia de empreender ainda causa resistência em parte dos profissionais criativos, especialmente quando parece aproximar a arte de uma lógica puramente comercial. Para Cintya, a questão é outra: a gestão não substitui a qualidade técnica, mas ajuda a sustentar o trabalho no longo prazo.
“Não é desvirtuar a arte. É respeitar o artista. O Brasil tem músicos extraordinários e professores incríveis. O que falta, muitas vezes, é ajudar esses profissionais a construir um negócio que dure, pague bem e permita crescer”.
O problema vai além da música
O desafio descrito pela musicista também aparece em outras áreas criativas. Profissionais de artes visuais, moda, gastronomia, design, comunicação e educação costumam enfrentar o mesmo descompasso entre formação técnica e preparo para gerir a carreira ou o próprio negócio.
Dados recentes do IBGE, divulgados pelo Ministério da Cultura, mostram que a cultura reúne 5,9 milhões de trabalhadores no país e gera R$ 387,9 bilhões em valor adicionado à economia.
Para Cintya, saber fazer bem continua sendo o ponto de partida. Mas, para viver do próprio trabalho, é preciso aprender também a organizar, comunicar, precificar e gerir.
“A técnica abre a porta. A gestão ajuda o profissional a permanecer no mercado com saúde financeira”, conclui.
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Quem é Cintya Soares?
Cintya Soares é empresária, mentora, mestre em Educação, pós-graduada em Música, fonoaudióloga e musicista. Atua há mais de 33 anos na educação musical e, há décadas, dedica-se ao empreendedorismo e à formação de professores e gestores de escolas de música em todo o Brasil. É criadora do Método Criança e Música e possui três produtos educacionais chancelados pelo MEC, com foco em formação, metodologia e desenvolvimento da educação musical. À frente de programas de mentoria, pós-graduação e treinamentos para o mercado educacional, Cintya já auxiliou centenas de professores e donos de escolas de música na estruturação de negócios mais sustentáveis, organizados e rentáveis, unindo educação, gestão, posicionamento e crescimento empresarial. Seu trabalho tem como missão fortalecer a educação musical no Brasil e ajudar profissionais da área a enxergarem a música também como negócio, sem perder a excelência pedagógica e o propósito educacional.
Por: CAMILA CORREA DE TULLIO AUGUSTO
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